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Chico Pedreiro - Zé Laurentino

Conheça a trágica história de Chico Pedreiro, poema de Catulo da Paixão Cearense sobre alcoolismo, crime e o amor incondicional de uma mãe.

Chico Pedreiro

Poema de Catulo da Paixão Cearense

Conheci Chico Pedreiro
Na cidade onde morei.
Foi o maior cachaceiro
Que até hoje avistei.
Era um degenerado,
Só vivia embriagado
E repartia a semana
De uma maneira vulgar:
Dois dias para trabalhar
E cinco para beber cana.

Chico Pedreiro fazia
A casa de todo mundo,
Mas a sua ninguém ia,
Pois era um casebre imundo.
E sua mãe, já velhinha,
Pobre, velha, coitadinha,
Trabalhava pra comer,
Sem poder mais. Trabalhava,
Pois o que Chico ganhava
Não dava nem para beber.

Sem leito, sem agasalhos,
Chico Pedreiro vivia;
Uma colcha de retalhos
Sua roupa parecia.
Rosto inchado, braços finos,
Até para os meninos
Chico servia de graça.
Olhos vermelhos e fundos,
Bebendo com vagabundos,
Vítimas também da cachaça.

De vez em quando se ouvia
Uma gritaria só.
Era Francisco que ia
Levado pro xilindró,
Soldados lhe escoltando,
A meninada gritando:
"Chico Pedreiro, olha o touro!"
E naquela festa mesquinha
De uma pobre velhinha,
A gente escutava o choro.

Não era outra senão
A mãe de Chico Pedreiro,
Que, em meio à multidão,
Chorava com desespero.
A gente via em seu rosto
O retrato do desgosto:
Um olhar triste, sem brilho,
Um rosto depauperado,
Pedindo que o delegado
Soltasse o seu pobre filho.

Mas se aquela senhora
O delegado atendia,
Quase que na mesma hora
A cena se repetia.
Chico bebia de novo,
Dizia pilhéria ao povo.
Era preso novamente,
Pois era o jeito que tinha.
E assim a pobre velhinha
Sofria constantemente.

Um dia, Chico atirou
Uma pedra em um menino,
E a pedrada matou.
Chico tornou-se assassino.
Aí foi preso de fato
Para pagar pelo crime
Que cometeu. E quando a mãezinha soube,
Pranto em seus olhos não coube.
Coitada, ah, como sofreu!

Ficou no maior desprezo,
Morando sem companhia.
E onde Chico estava preso,
Toda noitinha ela ia.
Da grade do outro lado,
Dizia: "Meu filho amado,
Como te vais neste inferno?"
Era um tristonho ato,
O mais sublime retrato
Da força do amor materno.

Um dia de manhãzinha,
O carcereiro chegou
E aquela pobre velhinha,
Morta no chão, encontrou.
Chico Pedreiro chorando,
A mão da mãe afagando.
Já depois do último adeus,
Dizia: "Mamãe querida,
Será ótima sua vida
Na santa casa de Deus."

Chegou ao fim da empreita,
Ao terminal do seu trilho.
Mas morreu satisfeita,
Pois morreu perto do filho.
Mãe boa faz, é assim:
Ama, sofre até o fim;
Seu filho é o seu troféu.
Seus pecados Deus perdoe.
E mãe boa, como ela foi,
Tem canto certo no céu.

Poema de Catulo da Paixão Cearense, voz marcante da poesia popular brasileira.

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